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ANTI-HORÁRIO 

ANTI-HORÁRIO

Em vão giro os ponteiros ao contrário
Como se assim pudesse voltar tudo…
O mundo continua aqui, contudo,
Agora é menos belo e extraordinário.

Folheio sem interesse o calendário,
Visto que nem dos dias mais me iludo:
Sigo entrando calado e saindo mudo
N’esse afã de fazer tudo no horário.

Contra o relógio se anda pela vida
Apesar de saber já de saída
Que o tempo sempre vence no final.

De facto, aproximando a hora da morte
Pela noite o tic-tac ecoa forte
Enquanto a vida passa quase irreal.

Betim – 05 04 2017

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O VISIONÁRIO 

O VISIONÁRIO

De ver o que há-de vir eu já nem vejo
O que diante dos meus olhos está.
Dividido entre o que há e o que haverá,
Construo pontes feitas de desejo.

Ideando de lampejo em lampejo
Um mundo todo novo que virá.
Eu visiono o futuro desde já
Nas linhas das alturas que planejo.

De viver quem vou ser eu já nem vivo
O que diante de mim deveras é
Como se sempre absorto sem motivo.

Atravesso a cidade (a vida até!…)
Andando sem ver, introspectivo,
Quase sem chão debaixo do meu pé.

Betim – 03 04 2017

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SEPULCRAL 

SEPULCRAL

O nome mais as datas no granito
Ao resumir aos olhos cada vida,
Parecem afirmar que após vivida
Pouco se deixa além do ali escrito.

Com efeito, o silêncio era infinito
Por todo o campo santo até a ermida,
D’onde uns anjos de pedra dão guarida
A estes tristes jazigos que visito.

As ervas se alastrando sub-reptícias
Mais as folhas caducas pelo outono
Reforçavam-me o aspecto de abandono.

Nada lembrava o mundo e suas delícias
O sítio em que repousam para a Glória
Aqueles que hoje estão só na memória…

Betim – 03 04 2017

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ALUCINÓGENO

ALUCINÓGENO

Olhos veem o que a mente não alcança.
Portas da percepção… Janelas d’alma!
Uma réstia de luz pura me acalma
Quando de fina poeira mostra a dança.

D’essa luz outra luz por dentro avança
Até me incandescer em cheio a palma.
Mas fere o alvo papel sanguíneo trauma
Co’a pena já aguda feito lança.

Assim, iluminado, permaneço
A ver e a escrever tudo o que estou vendo
N’um manuscrito vão mas estupendo.

No mais, viajando em mim eu me conheço,
Pois, a mente aloucada onde ora estou
Que torna interessante ser quem sou.

Betim – 02 04 2017

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EMOCIONAL

EMOCIONAL

Cogito, logo, sinto. Logo, invento…
Isto que conhecemos por consciência
E temos como sede da sapiência
É tanto pensamento e sentimento.

A memória d’algum vago momento,
A história individual d’uma existência
E aquilo de que temos mais querência
Formam o emocional conhecimento.

Por isso se consegue imaginar
Todas as coisas fora do lugar
E d’aí fazê-las novas novamente.

Sem emoções, talvez nem mais humanos
Sejamos se incapazes já de enganos,
Reduzindo à razão a voz da mente.

Betim – 02 04 2017

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FABULISTA 

FABULISTA

Se toda mentira tem
Algum fundo de verdade
A fantasia também
Muitas vezes me convém
No lugar da realidade.

Qual! Mentirinha de nada…
Poética, todavia,
É uma história inventada
Que se muito bem contada
Por verdade passaria.

O poeta é um fabulista
Que faz mais belo o que sonha.
Não importa o quanto dista
O facto que acaso exista
Das fábulas que proponha.

Não importa nem se errado
Argumente no vazio.
Se s’eleva contra o Fado,
Revisitando o passado
Face um futuro sombrio.

Importa inventar-se lendas
E n’elas acreditar:
Como quem por velhas sendas,
Louco, imagina contendas
Apenas para admirar.

Betim – 01 04 2017

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ANAMNESE 

ANAMNESE

Sinto como se houvesse algo a fazer,
Mas não soubesse ainda ouvir sem susto
Palavras n’um sentido mais robusto
Dizerem dos segredos em meu ser.

Chega ao ponto em que para m’entender,
Seja preciso qu’eu me lembre justo
Aquilo que esqueci com muito custo
E preferia mesmo não saber.

Contudo, estão em mim n’algum lugar
As memórias que tenho-de alcançar,
Sob pena de perder-me enfim de vez.

Pois só essa lembrança tão molesta,
Que apesar dos pesares mais se presta
A me trazer de novo lucidez.

Betim – 30 03 2017

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BEM PECULIAR 

BEM PECULIAR

Tudo indica que não seja algo grave,
Essa vontade súbita de vê-la.
Talvez a nova lua ou alguma estrela
Brilhando para o agouro de obtusa ave.

Ou talvez seu olhar de novo suave
Trouxesse-me de volta enfim para ela
Ou senão, por sentir-se ‘inda mais bela,
Houvesse de meu peito a única chave.

Ela, à sua maneira, tem me amado,
Ainda que pareça estranho ou errado
A essa altura da vida acreditar.

Apesar dos pesares, eu a aceito
E permito que me ame d’esse jeito,
Que considero, sim, bem peculiar.

Betim – 28 03 2017

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(AB)USADA

(AB)USADA

Dizes que dás às mulheres
Que não te admitem querer
Tudo o que não ousam ter
E d’elas o que quiseres
Fazes sem tal parecer.

Porém, mais lábias que lábios
Tens à mulher que provocas…
Tuas palavras tão ocas
Só pretendem menos sábios
Os corpos que estranho tocas.

Quando a mão que ama machuca
E a boca que beija mente
Tudo que por fim se sente
É o asco da língua à nuca,
Que faz o toque indecente.

Tu não me dás o que quero,
Sim o que queres qu’eu queira.
Tu não me queres inteira,
Se és tudo, menos sincero,
E eu sou tão-só verdadeira.

Queres só qu’eu não me negue
Nas voltas de teus rodeios
Enquanto amassas meus seios,
Não por estar já entregue,
Sim esvaziada de anseios…

Betim – 12 03 2017

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DIFERENCIAL 

DIFERENCIAL

Difere o que se faz do que se ideia
Tanto quanto da mão difere a mente.
O real via de regra nos desmente
E desmascara diante da plateia…

Mas muda o mundo quem muda de ideia,
E tenta fazer algo diferente.
A inovação se impõe teimosamente
No passo que inicia uma odisseia.

Difere por não óbvio mas melhor
O novo que se toma por ideal
E agrega em si o máximo de valor.

É quando um sonho torna-se mais real,
Pondo até inimigos a favor
N’aquilo que é o seu diferencial.

Betim – 25 03 2017

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