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HOMILIA 

HOMILIA

Em verdade, ninguém sabe de Deus…
O que quis, o que quer ou há-de querer.
Todos apenas veem o Seu poder
E intuem da realidade os sonhos Seus.

Os homens — quer patrícios; quer plebeus —
Mais reconhecem Deus dentro do ser,
N’uma consciência plena de saber
Que traz discernimento aos olhos meus.

Deus é mistério. Deus é além-tudo…
Diante d’Ele melhor eu quedar mudo
Do que viver falando em Seu nome.

Melhor é admitir minha ignorância
E silenciar de toda essa inconstância
Que através da existência nos consome.

Sorocaba – 18 07 2017

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O ARQUEÓLOGO 

O ARQUEÓLOGO

Na cratera d’algum vulcão extinto
Ou nas ruínas d’um palácio etrusco
Vestígios de quem fui ainda busco
E as lendas em que cri por fim desminto.

Camadas e camadas de indistinto
Pó cobrindo o horizonte revelhusco…
De civilizações o lusco-fusco
Percorro em intrincado labirinto.

Talvez mais no passado que ao presente
Eu viva de mim mesmo indiferente,
Olhando para além do quotidiano.

Por isso têm me visto distraído:
Por caminhos que vão até o Olvido,
Sigo as pegadas vãs do ser humano…

Sorocaba – 16 07 2017

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UMA MARIONETE 

UMA MARIONETE

Transita entre o caos e o extraordinário
Com liames a prender-te as mãos e os pés.
De qualquer modo, mal sabes quem és:
Apressa o passo em frente — e sim — no horário!

Não te alegra o espetáculo, ao contrário,
Mal suportas a vida e seu revés…
Só te resta encarar, mesmo de viés,
Outra revolução do proletário.

Busca certezas mais tranquilizantes
Às dúvidas sempre inquietadoras,
Visíveis em muitíssimos semblantes.

Mas finge quando vês reveladoras
Mudanças que mantém tudo como antes
Mostrarem-se, afinal, conservadoras…

Betim – 11 07 2017

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O AUTOINTITULADO  

O AUTOINTITULADO

Diz-que falar demais e ouvir de menos
É o mal de quem pensa saber tudo.
Este não conseguia quedar mudo
Face a problemas grandes ou pequenos.

Chamam-no de “doutor” sem ter ao menos
Atravessado uns bons anos de estudo…
Impõe tal tratamento a si contudo,
Encarando-nos com olhos amenos.

Media-se o saber com seu dinheiro,
De sorte que falava o tempo inteiro,
Sem saber do que estava enfim falando.

Atentos às palavras de seus lábios,
Comparavam-lhe os ditos aos mais sábios
Por melhor o iludir de quando em quando.

Betim – 10 07 2017

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FALCOARIA 

FALCOARIA

Pousada em minha destra, olhos vendados,
A ave aguarda na névoa matutina
A ordem de começar sua rapina,
Por todos esses campos e banhados.

Tensa, ainda mantém os pés arqueados
Pronta para a guerreira disciplina,
Que fez sempre tão próspera a assassina,
Ao deixar rastejantes destroçados.

Acto contínuo, tiro d’ela a venda,
Lanço-a e logo alça voo de encontro ao vento,
Buscando nas alturas nova senda.

Porém, se cá no chão vê movimento,
Despenca desde as nuvens em contenda…
Levanta em pleno ar um peçonhento!

Betim – 07 07 2017

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VELÓRIO 

VELÓRIO

A vela acesa, o fósforo apagado…
Sobre a mesa os distingo pensativo:
“Se para morrer basta-se estar vivo,
Eis aqui vida e morte lado a lado!”

A luz a propagar-se é antes Fado,
Que às trevas devassava imperativo.
Resta apenas prantear sem lenitivo
Tudo o que agora fica no passado.

O fósforo apagado, a vela acesa…
Se este ardeu sua vida com presteza,
Aquela se consome lentamente.

Em chamas, todavia, vão queimar
Seja ligeiro; seja com vagar,
Como luz que alumia indiferente.

Betim – 04 07 2017

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SORORIDADE 

SORORIDADE

Saúdo essa irmandade de mulheres,
Que tem nos feito todos mais humanos.
Difere do que vejo há tantos anos
Às voltas com direitos e deveres.

Há-que tornar mais sábios os saberes
Sem ignorar dos homens seus enganos
Ao denunciar de tantos tantos planos,
Que perpetuam estúpidos poderes.

Sórores — religiosas ou nem tanto —
Lutando contra séculos de abusos
Pelo que talvez haja de mais santo.

Por isso desmascaram os obtusos,
E enaltecem àquelas cujo encanto
Está em pôr os tolos tão confusos.

Betim – 22 04 2017

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AMONTILADO 

AMONTILADO

O sol se põe na taça de xerez
Por respiro do espírito cativo:
D’um lado agradecia d’estar vivo;
D’outro, se aborrecesse ali talvez…

O olhar a se perder por sua vez
Tem a ver com andar tão emotivo,
A ponto de chorando sem motivo,
Culpar, por suscetível, a embriaguez…

Ao ocaso lhe revele sua verdade
Adormecida há décadas na adega,
Para o gozo d’alguma mocidade.

Mas tenha sempre d’ele uma fé cega,
Visto do amontilado a qualidade
É dar exacto quanto a vida nega.

Betim – 10 04 2017

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POÉTICO

POÉTICO

Entre ser e parecer ser,
Vivo escrevendo meus dias.
As linhas que ouso escrever
Muitos chamam de poesias,
Mas poucos gostam de ler.

Eu, por outro lado, vejo
A vida por linhas tortas
Quando tonto de desejo
Passeio pelas horas mortas
À luz d’um luar benfazejo.

Talvez encontre a verdade
Apenas buscando o belo,
Ou tenha a insanidade
De ser feliz sem sabê-lo
Andando pela cidade.

Talvez ideias em excesso,
Imagens em profusão…
Esse mal de que padeço
Me faz viver de ilusão
As horas em que anoiteço.

Talvez… E eu fico a poetar,
Ainda que um tanto hermético:
A este benfazejo luar
Muitos chamam de poético,
Mas poucos sabem gostar.

Betim – 08 04 2017

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