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ARRAIAL

ARRAIAL

Um lugar longe e pequeno
Em noite de grande festa…
Derramava luar pleno
Sobre fogueira e sereno,
Rebrilhando suor na testa.

Vinham mocinhas faceiras
Entre olhares e meiguices
Se rindo das brincadeiras
N’aquelas rodas danceiras
A rodar sem-vergonhices.

Contudo, quedava eu triste
Em meio a tanta alegria.
Tão estranho era à folia,
Que pensando em quanto existe
Mal lembrava que existia…

Quem na treva olvida a luz
Fecha os olhos para o belo.
A noite passa em desvelo
Sem ver aonde conduz
O amor e seu atropelo.

Pois, se o povo folgando
Não me cura o coração,
O que resta é a ilusão
D’encontrar-me vez em quando
N’uma festa de são João.

Betim – 24 06 2017

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HOMILIA 

HOMILIA

Em verdade, ninguém sabe de Deus…
O que quis, o que quer ou há-de querer.
Todos apenas veem o Seu poder
E intuem da realidade os sonhos Seus.

Os homens — quer patrícios; quer plebeus —
Mais reconhecem Deus dentro do ser,
N’uma consciência plena de saber
Que traz discernimento aos olhos meus.

Deus é mistério. Deus é além-tudo…
Diante d’Ele melhor eu quedar mudo
Do que viver falando em Seu nome.

Melhor é admitir minha ignorância
E silenciar de toda essa inconstância
Que através da existência nos consome.

Sorocaba – 18 07 2017

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O ARQUEÓLOGO 

O ARQUEÓLOGO

Na cratera d’algum vulcão extinto
Ou nas ruínas d’um palácio etrusco
Vestígios de quem fui ainda busco
E as lendas em que cri por fim desminto.

Camadas e camadas de indistinto
Pó cobrindo o horizonte revelhusco…
De civilizações o lusco-fusco
Percorro em intrincado labirinto.

Talvez mais no passado que ao presente
Eu viva de mim mesmo indiferente,
Olhando para além do quotidiano.

Por isso têm me visto distraído:
Por caminhos que vão até o Olvido,
Sigo as pegadas vãs do ser humano…

Sorocaba – 16 07 2017

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UMA MARIONETE 

UMA MARIONETE

Transita entre o caos e o extraordinário
Com liames a prender-te as mãos e os pés.
De qualquer modo, mal sabes quem és:
Apressa o passo em frente — e sim — no horário!

Não te alegra o espetáculo, ao contrário,
Mal suportas a vida e seu revés…
Só te resta encarar, mesmo de viés,
Outra revolução do proletário.

Busca certezas mais tranquilizantes
Às dúvidas sempre inquietadoras,
Visíveis em muitíssimos semblantes.

Mas finge quando vês reveladoras
Mudanças que mantém tudo como antes
Mostrarem-se, afinal, conservadoras…

Betim – 11 07 2017

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O AUTOINTITULADO  

O AUTOINTITULADO

Diz-que falar demais e ouvir de menos
É o mal de quem pensa saber tudo.
Este não conseguia quedar mudo
Face a problemas grandes ou pequenos.

Chamam-no de “doutor” sem ter ao menos
Atravessado uns bons anos de estudo…
Impõe tal tratamento a si contudo,
Encarando-nos com olhos amenos.

Media-se o saber com seu dinheiro,
De sorte que falava o tempo inteiro,
Sem saber do que estava enfim falando.

Atentos às palavras de seus lábios,
Comparavam-lhe os ditos aos mais sábios
Por melhor o iludir de quando em quando.

Betim – 10 07 2017

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FALCOARIA 

FALCOARIA

Pousada em minha destra, olhos vendados,
A ave aguarda na névoa matutina
A ordem de começar sua rapina,
Por todos esses campos e banhados.

Tensa, ainda mantém os pés arqueados
Pronta para a guerreira disciplina,
Que fez sempre tão próspera a assassina,
Ao deixar rastejantes destroçados.

Acto contínuo, tiro d’ela a venda,
Lanço-a e logo alça voo de encontro ao vento,
Buscando nas alturas nova senda.

Porém, se cá no chão vê movimento,
Despenca desde as nuvens em contenda…
Levanta em pleno ar um peçonhento!

Betim – 07 07 2017

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VELÓRIO 

VELÓRIO

A vela acesa, o fósforo apagado…
Sobre a mesa os distingo pensativo:
“Se para morrer basta-se estar vivo,
Eis aqui vida e morte lado a lado!”

A luz a propagar-se é antes Fado,
Que às trevas devassava imperativo.
Resta apenas prantear sem lenitivo
Tudo o que agora fica no passado.

O fósforo apagado, a vela acesa…
Se este ardeu sua vida com presteza,
Aquela se consome lentamente.

Em chamas, todavia, vão queimar
Seja ligeiro; seja com vagar,
Como luz que alumia indiferente.

Betim – 04 07 2017

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