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SORORIDADE 

SORORIDADE

Saúdo essa irmandade de mulheres,
Que tem nos feito todos mais humanos.
Difere do que vejo há tantos anos
Às voltas com direitos e deveres.

Há-que tornar mais sábios os saberes
Sem ignorar dos homens seus enganos
Ao denunciar de tantos tantos planos,
Que perpetuam estúpidos poderes.

Sórores — religiosas ou nem tanto —
Lutando contra séculos de abusos
Pelo que talvez haja de mais santo.

Por isso desmascaram os obtusos,
E enaltecem àquelas cujo encanto
Está em pôr os tolos tão confusos.

Betim – 22 04 2017

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AMONTILADO 

AMONTILADO

O sol se põe na taça de xerez
Por respiro do espírito cativo:
D’um lado agradecia d’estar vivo;
D’outro, se aborrecesse ali talvez…

O olhar a se perder por sua vez
Tem a ver com andar tão emotivo,
A ponto de chorando sem motivo,
Culpar, por suscetível, a embriaguez…

Ao ocaso lhe revele sua verdade
Adormecida há décadas na adega,
Para o gozo d’alguma mocidade.

Mas tenha sempre d’ele uma fé cega,
Visto do amontilado a qualidade
É dar exacto quanto a vida nega.

Betim – 10 04 2017

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POÉTICO

POÉTICO

Entre ser e parecer ser,
Vivo escrevendo meus dias.
As linhas que ouso escrever
Muitos chamam de poesias,
Mas poucos gostam de ler.

Eu, por outro lado, vejo
A vida por linhas tortas
Quando tonto de desejo
Passeio pelas horas mortas
À luz d’um luar benfazejo.

Talvez encontre a verdade
Apenas buscando o belo,
Ou tenha a insanidade
De ser feliz sem sabê-lo
Andando pela cidade.

Talvez ideias em excesso,
Imagens em profusão…
Esse mal de que padeço
Me faz viver de ilusão
As horas em que anoiteço.

Talvez… E eu fico a poetar,
Ainda que um tanto hermético:
A este benfazejo luar
Muitos chamam de poético,
Mas poucos sabem gostar.

Betim – 08 04 2017

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ANTI-HORÁRIO 

ANTI-HORÁRIO

Em vão giro os ponteiros ao contrário
Como se assim pudesse voltar tudo…
O mundo continua aqui, contudo,
Agora é menos belo e extraordinário.

Folheio sem interesse o calendário,
Visto que nem dos dias mais me iludo:
Sigo entrando calado e saindo mudo
N’esse afã de fazer tudo no horário.

Contra o relógio se anda pela vida
Apesar de saber já de saída
Que o tempo sempre vence no final.

De facto, aproximando a hora da morte
Pela noite o tic-tac ecoa forte
Enquanto a vida passa quase irreal.

Betim – 05 04 2017

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O VISIONÁRIO 

O VISIONÁRIO

De ver o que há-de vir eu já nem vejo
O que diante dos meus olhos está.
Dividido entre o que há e o que haverá,
Construo pontes feitas de desejo.

Ideando de lampejo em lampejo
Um mundo todo novo que virá.
Eu visiono o futuro desde já
Nas linhas das alturas que planejo.

De viver quem vou ser eu já nem vivo
O que diante de mim deveras é
Como se sempre absorto sem motivo.

Atravesso a cidade (a vida até!…)
Andando sem ver, introspectivo,
Quase sem chão debaixo do meu pé.

Betim – 03 04 2017

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SEPULCRAL 

SEPULCRAL

O nome mais as datas no granito
Ao resumir aos olhos cada vida,
Parecem afirmar que após vivida
Pouco se deixa além do ali escrito.

Com efeito, o silêncio era infinito
Por todo o campo santo até a ermida,
D’onde uns anjos de pedra dão guarida
A estes tristes jazigos que visito.

As ervas se alastrando sub-reptícias
Mais as folhas caducas pelo outono
Reforçavam-me o aspecto de abandono.

Nada lembrava o mundo e suas delícias
O sítio em que repousam para a Glória
Aqueles que hoje estão só na memória…

Betim – 03 04 2017

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ALUCINÓGENO

ALUCINÓGENO

Olhos veem o que a mente não alcança.
Portas da percepção… Janelas d’alma!
Uma réstia de luz pura me acalma
Quando de fina poeira mostra a dança.

D’essa luz outra luz por dentro avança
Até me incandescer em cheio a palma.
Mas fere o alvo papel sanguíneo trauma
Co’a pena já aguda feito lança.

Assim, iluminado, permaneço
A ver e a escrever tudo o que estou vendo
N’um manuscrito vão mas estupendo.

No mais, viajando em mim eu me conheço,
Pois, a mente aloucada onde ora estou
Que torna interessante ser quem sou.

Betim – 02 04 2017

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EMOCIONAL

EMOCIONAL

Cogito, logo, sinto. Logo, invento…
Isto que conhecemos por consciência
E temos como sede da sapiência
É tanto pensamento e sentimento.

A memória d’algum vago momento,
A história individual d’uma existência
E aquilo de que temos mais querência
Formam o emocional conhecimento.

Por isso se consegue imaginar
Todas as coisas fora do lugar
E d’aí fazê-las novas novamente.

Sem emoções, talvez nem mais humanos
Sejamos se incapazes já de enganos,
Reduzindo à razão a voz da mente.

Betim – 02 04 2017

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FABULISTA 

FABULISTA

Se toda mentira tem
Algum fundo de verdade
A fantasia também
Muitas vezes me convém
No lugar da realidade.

Qual! Mentirinha de nada…
Poética, todavia,
É uma história inventada
Que se muito bem contada
Por verdade passaria.

O poeta é um fabulista
Que faz mais belo o que sonha.
Não importa o quanto dista
O facto que acaso exista
Das fábulas que proponha.

Não importa nem se errado
Argumente no vazio.
Se s’eleva contra o Fado,
Revisitando o passado
Face um futuro sombrio.

Importa inventar-se lendas
E n’elas acreditar:
Como quem por velhas sendas,
Louco, imagina contendas
Apenas para admirar.

Betim – 01 04 2017

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