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ANAMNESE 

ANAMNESE

Sinto como se houvesse algo a fazer,
Mas não soubesse ainda ouvir sem susto
Palavras n’um sentido mais robusto
Dizerem dos segredos em meu ser.

Chega ao ponto em que para m’entender,
Seja preciso qu’eu me lembre justo
Aquilo que esqueci com muito custo
E preferia mesmo não saber.

Contudo, estão em mim n’algum lugar
As memórias que tenho-de alcançar,
Sob pena de perder-me enfim de vez.

Pois só essa lembrança tão molesta,
Que apesar dos pesares mais se presta
A me trazer de novo lucidez.

Betim – 30 03 2017

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BEM PECULIAR 

BEM PECULIAR

Tudo indica que não seja algo grave,
Essa vontade súbita de vê-la.
Talvez a nova lua ou alguma estrela
Brilhando para o agouro de obtusa ave.

Ou talvez seu olhar de novo suave
Trouxesse-me de volta enfim para ela
Ou senão, por sentir-se ‘inda mais bela,
Houvesse de meu peito a única chave.

Ela, à sua maneira, tem me amado,
Ainda que pareça estranho ou errado
A essa altura da vida acreditar.

Apesar dos pesares, eu a aceito
E permito que me ame d’esse jeito,
Que considero, sim, bem peculiar.

Betim – 28 03 2017

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(AB)USADA

(AB)USADA

Dizes que dás às mulheres
Que não te admitem querer
Tudo o que não ousam ter
E d’elas o que quiseres
Fazes sem tal parecer.

Porém, mais lábias que lábios
Tens à mulher que provocas…
Tuas palavras tão ocas
Só pretendem menos sábios
Os corpos que estranho tocas.

Quando a mão que ama machuca
E a boca que beija mente
Tudo que por fim se sente
É o asco da língua à nuca,
Que faz o toque indecente.

Tu não me dás o que quero,
Sim o que queres qu’eu queira.
Tu não me queres inteira,
Se és tudo, menos sincero,
E eu sou tão-só verdadeira.

Queres só qu’eu não me negue
Nas voltas de teus rodeios
Enquanto amassas meus seios,
Não por estar já entregue,
Sim esvaziada de anseios…

Betim – 12 03 2017

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DIFERENCIAL 

DIFERENCIAL

Difere o que se faz do que se ideia
Tanto quanto da mão difere a mente.
O real via de regra nos desmente
E desmascara diante da plateia…

Mas muda o mundo quem muda de ideia,
E tenta fazer algo diferente.
A inovação se impõe teimosamente
No passo que inicia uma odisseia.

Difere por não óbvio mas melhor
O novo que se toma por ideal
E agrega em si o máximo de valor.

É quando um sonho torna-se mais real,
Pondo até inimigos a favor
N’aquilo que é o seu diferencial.

Betim – 25 03 2017

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ANTEONTEM 

ANTEONTEM

Acaba de acabar, mas permanece
No ardor d’esse passado tão recente,
Como se fosse algo no presente
E ainda do meu lado ela estivesse.

Depois de hoje e ontem, tudo desconhece
O sentimento por dentro da gente:
Presente do passado tão-somente
Entre o que aconteceu e o que acontece.

Eu sigo em frente como todo mundo,
Embora sem saber aonde vá
A ver ser ver verdade aqui ou lá.

De memória, contudo, me confundo
Tamanhas as tristezas e alegrias,
Que se alternam apenas em dois dias!

Betim – 23 09 1998

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BORDA DA MATA

BORDA DA MATA

A estrada que margeia o arvoredo
Guarda o hálito de névoa d’alvorada,
Enquanto à sombra eu sigo caminhada
Sem o sol que castiga desde cedo.

Na grota, o rio cai sobre um lajedo,
Murmurando-se a canção encaixoeirada,
Que faz ouvir de longe na jornada
Por terras onde corre cheio e ledo.

Se cruzo esses sertões de canto a canto
É por sempre querer de seu encanto
Ao longo de meus dias n’esse mundo.

Eu olho e vejo cada vez mais longe
Certo de que a vereda sempre alonge
O fim d’esse chão d’onde sou oriundo.

Tumiritinga – 09 07 1993

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ORELHAS-DE-PAU

ORELHAS-DE-PAU

Havia um tronco de árvore partida
Bem no meio da calçada, em plena rua.
Fora deixada ali e continua
A apodrecer depois de suprimida.

Por madeira de lei, o toco sem vida
Exibe o cerne sob a casca nua,
Enquanto o tom de brasa se acentua,
Por haver toda a seiva enfim perdida.

Sem embargo, laranjas excrecências
Combrem o nobre pau feito insolências
A maneira de orelhas ou algo vil.

Cheio de orelhas, o pau que ali fenece
Queda em silêncio como se dissesse
— “Aqui jaz outro jovem pau-brasil”.

Betim – 20 03 2017

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FEROMÔNIOS 

FEROMÔNIOS

O cheiro qu’ela exala me endoidece
E me faz desejá-la intensamente.
Cheiro de fêmea em flor que de repente
Me deixa de joelhos, quase em prece…

De mais perto seu sexo me estremece
Sob olor tão forte, úmido e envolvente,
Que me sinto encantado tão-somente,
Como se seu cativo eu me fizesse.

Umas gotas de suor por sobre a pele
Despertam toda sorte de ousadias
N’esse ardor que para ela mais me impele.

Assim tenho vivido, pois, meus dias
Na ânsia de que em seu corpo se revele
A cura de tamanhas agonias.

Betim – 19 03 2017

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